Estou com uma inclusão em classe… o que faço? / Professora Janaína Spolidorio
Janaína Spolidorio

Estou com uma inclusão em classe… o que faço?

         Muito se fala em inclusão e há muito tempo. Já vivi bastante essa realidade, assim como você, que está lendo este artigo o deve ter feito ou está fazendo.

          Quando fiz magistério, ela acontecia apenas em salas de recursos. Anos mais tarde é que os chamados “alunos especiais” começaram a ser colocados nas classes regulares.

          Por muitos anos, lecionei idiomas… inglês, espanhol, francês. Sempre tive facilidade para outras línguas e gostava muito. Ocorre que surgiu um concurso público e prestei, passei, ingressei na prefeitura.

           Primeiro ano como polivalente, escola praticamente semi-rural, longe de minha casa. Uma segunda série ( sendo que meu estágio tinha sido inteiro em primeiro ano ). Três alunos pré-silábicos e o restante da sala alfabética. Até aí tudo ok! Era até fácil lecionar, os alunos eram muito carinhosos e respeitosos. Davam total atenção à aula. Minha maior preocupação eram os pré-silábicos em uma sala de segundo ano.

            Em final de março aparece uma inclusão na escola. Cadeirante, com deficiência grave cognitiva. Faz tanto tempo e foram tantas inclusões, que não saberia dizer especificamente o que o menino tinha. Não é porque não tenha dado atenção, é porque sempre considerei a criança e não a deficiência, e essa é a primeira dica que quero que se lembre, pois voltarei nela em breve, no artigo.banner.1

             O menino nunca tinha frequentado a escola, não conhecia letras ou números, tinha sido pouco estimulado em relação à escola. Teria que entrar no primeiro ano. Por motivos pouco lógicos, em lugar de colocar no primeiro ano ( pois tinha degrau e a classe já estava acima do limite de alunos – essa foi a justificativa da diretora ), ele foi para minha sala de segundo ano.

              E é aí que nos identificamos, talvez. Eu tinha uma sala inteira com objetivos de segundo ano, três pré-silábicos e agora uma inclusão… em meu primeiro ano de aula em ensino regular. Sim, era muito para mim. Não tinha experiência, nunca tinha estudado sobre o assunto e não posso dizer que tenha sido minha melhor experiência com inclusão, embora eu tenha feito progressos sim. No final do ano o menino identificava as letras do nome e o montava com letras móveis e usava quadros de recurso para se comunicar, uma vez que não falava. Sabia fazer contagem até dez e tinha uma vida social intensa, pois os colegas gostavam muito dele.

               Hoje vejo que até consegui bastante, mas me frustrava muito com ele. Hoje sei que não conseguiria ir muito além do que consegui, mas eu nunca me encontrei com seus terapeutas, a diretora não me dava suporte e nem tinha um diagnóstico completo do menino. As informações vinham da irmã mais velha.

                Esse foi o primeiro caso de muitos. Já tive crianças, em minha sala, com hidrocefalia, síndrome de Down, Asperger ( Vários! São meus favoritos! ) e muitos casos com nomes menos comuns. Em alguns, a inclusão foi um sucesso e em outros, os resultados não foram bem o que eu esperava.

                 Não sei o seu caso, mas nos meus, pouco tive suporte, seja da escola ou dos profissionais, recebia dos terapeutas sugestões de como trabalhar com o aluno, mas elas eram mais apropriadas a um consultório, se for ser bem sincera. Na sala de aula não davam completo resultado, apenas reforçavam o que era feito na terapia.

                  Sempre achei que a inclusão era uma sugestão válida, mas nas escolas que frequentei posso afirmar que elas não eram preparadas para ter casos de inclusão. Precisaríamos ter mais formação, não sobre o aluno com inclusão, em si, porque cada caso é um caso, mas sim sobre o que fazer inclusão, em geral.

                   Cada turma reage de forma diferente e é muito difícil incluir na rotina a inclusão, não por ser uma inclusão, mas sim por ser algo muito diferenciado. Já lidamos com várias dificuldades em sala, incluindo transtorno auditivo, dislexia, disgrafia e outras dificuldades de aprendizagem e incluir uma criança com dificuldade mais severa pode ser impactante.

                    A boa notícia é que, conforme você lida com inclusão, mais técnicas desenvolve para poder deixar a inclusão mais estabelecida em sua turma. Um princípio pessoal que desenvolvi, ao longo dos anos, é não depender de ajuda externa. Se ela vier, será muito bem-vinda, mas criar expectativas sobre essa ajuda nunca foi bom para mim, pois pessoalmente acho que cria uma dependência emocional e me atrapalha em relação ao que devo fazer em sala de aula.

                     Achei bacana escrever sobre o assunto, porque muitas vezes recebo mensagens assim: “Tenho um Síndrome de Down na sala. Você tem atividades para ele?” A questão é que não importa, no caso de atividades, que ele seja Down. As atividades irão depender da idade cognitiva da criança. A primeira premissa que criei para lidar com a inclusão em minhas turmas é que não importa a deficiência, o que importa é a idade cognitiva da criança. Desta forma, quando me perguntam, já rebato perguntando qual a idade cognitiva, pois esse deve ser o foco do trabalho.

                       Agora, tentarei ser bem breve no restante do artigo! Minha intenção é deixar aqui algumas dicas que me ajudaram muito quando trabalhei com inclusão e que desenvolvi ao longo dos anos. Espero que possa ajuda-los também!FAIXA.1

  1. Estabeleça apenas uma prioridade para o aluno de inclusão e trabalhe com ela. Se ele conseguir atingir esse primeiro objetivo, passe aos poucos para os próximos. A prioridade nem sempre é cognitiva, às vezes é preciso estabelecer primeiro prioridade de comportamento. Me ocorria muito com Aspergers, pois eles tinham que, primeiro, ter uma rotina fixa, para depois eu me preocupar com as lições.
  2. Sempre dê coisas bem simples no começo, só passe para o complexo quando tiver certeza de que o aluno realmente domina o básico. Ele tem que ficar confiante em relação ao que já conseguiu fazer.
  3. Prática e repetição ajudam muito em alguns casos!
  4. Reforce o que é abstrato dando sempre exemplos concretos. Letras são abstratas, por exemplo. Usar letras móveis dá ótimos resultados!
  5. Pense em recursos que precisará ter sempre em sua sala de aula e deixe-os sempre à mão e próximo do lugar do aluno.
  6. Tente trazer à tona as habilidades que o aluno possui, use-as para enriquecer as fraquezas ou dificuldades.
  7. De novo… concentre-se no aluno e não na deficiência ou síndrome. Claro que, em alguns casos, é preciso ter bem consciência da síndrome e de como lidar com ela, mas o mais importante é lidar com o comportamental e cognitivo. Não é um “Down” é um aluno com idade mental de quatro anos, na primeira série, por exemplo.
  8. Crie situações que estimulem a autoestima.
  9. Muitas vezes o básico pode ser interação social, higiene básica mesmo e até a fala. Tive já um Down, com sete anos, idade mental de dois, que tinha sido pouco estimulado. Uma de minhas prioridades era o uso da fala para a comunicação.
  10. Sempre que falar com familiares, procure sorrir, causa empatia e faz com que o familiar se sinta mais à vontade com você. Se demonstrar preocupação, já criará uma barreira com a pessoa, de modo inconsciente. Com o familiar mais à vontade, você conseguirá descobrir muito mais informações sobre o caso e, quanto mais souber, melhor será para você, para o aluno e para a turma.

                    

2 Comentários

  • NILZA disse:

    Bom dia! Janaina gostei muito de todas as informações, ainda tenho uma dúvida, como identificar a capacidade cognitiva de um aluno com PC (cadeirante e não fala)?. Ele tem espasmos, em algumas situações ele balança a cabeça em sinal de sim/ não.

    • Bom dia, Nilza
      O ideal é ter o relatório cognitivo do terapeuta. Como seu aluno não fala, apenas balança a cabeça ( que era o mesmo caso de cadeirante que eu tive no meu primeiro ano e mencionei no texto ), somente o terapeuta consegue lhe dar essa informação mais corretamente. Como sei que no nosso país é difícil ter colaboração, pois muito poucas vezes consegui relatórios ou falar com os terapeutas, você pode fazer testes avaliativos para saber qual é a idade escolar aproximada, cognitivamente falando. Você pode, por exemplo, mostrar algo de uma cor e pedir para responder se é vermelho, por exemplo, para saber se identifica cor. Depois, pode passar para formas, números, letras, sempre usando, a princípio, o que o aluno sabe, que é dizer sim e não com a cabeça. Talvez seja um começo interessante nesse caso! Espero ter ajudado!

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